ONDULAÇÕES

AvóIemanjá | campo mítico em construção

Pesquisadora colaboradora: Rosa Correa da Silva.

 

 

A ação AvóIemanjá[1] é a evocação do arquétipo liberador/libertador dos recalques que aprisionam a transmissão da ancestralidade da avó materna negra. Considero que meu objeto de pesquisa seja a cartografia do “mito pessoal” (Look at yourself), expressando-me pela dança como ritual venho cartografar como “transição/processo”, a partir de um leitmotiv definido por Renato Cohen (1998) como fio condutor da composição da performance e formador de “campo mítico”, sendo o fio condutor desta pesquisa a água.

Esta pesquisa inaugura a necessidade de fluidez, de pensamento, emoções e paulatinamente em doar-se pela escrita, pelo processo criativo,  troca com pessoas que querem tal fluidez, ingressantes e imersos. Sendo esta parceria, este chamado, de Mariana Galli Figueiredo, um convite ao retorno à prática, à cartografia de um desejo de integração as memórias de minha ancestral mais próxima e ao mesmo distante pelo recalque que sofreu sob sua religiosidade.

Agregar a água como leitmotiv é estar em casa com a mitologia que envolve o elemento, como elemento. Assim, o presente estudo tornou-se a busca pelo mito pessoal da avó materna, AvóIemanjá. Armando Vallado (2002, p.45-46) descreve a Iemanjá Aoiô como mãe fundadora e protetora da família, qualidades inerentes a minha avó materna, a senhora Joventina Lima das Dores[2].

O trabalho expressivo, em processo, revela a corporeidade da Mãe Divina Iemanjá Aoiô (VALLADO, 2002), a cosmogonia na qual se insere e a dança como ritual, integrando características da tradição africano-brasileira ou “Considerando-a como agente de integração que pode estabelecer uma coerência, uma organicidade entre a tradição de um povo, e o conhecimento da arte teorizado” (SANTOS, 1996).

A água é o objeto de construção do “campo mítico” e como criadora vou dar forma a sua fluidez no espaço cênico e em meu corpo – líquido e fluídico – como espaço, território, de passagem: ponte, correnteza, margem, sustentação, tormenta ou turvar, arrancar, parar, germinar. Tal como a água preenche espaços, limpa, ameniza, perturba, devolve, alimenta, quero perfazer seu fazer em mim.

Evito representações estanques de sereias ou elementais, representações figurativas de entidade, me apresento como um ser atravessado por estes seres, constituído de tais referências, da representação cotidiana, urbana, dos mitos aquáticos em mim. Como em um canto d’água que me convida ou me atrai para a margem, puxa-me ao fundo, me invade de substância primordial e me liga com todas as ancestrais que estiveram neste lugar e permanecem como substância componente, uma vez que ali mergulharam.

Já faz algum tempo que saí da cidade árida, neste momento estou passando pela mata densa, ainda não sei o momento que chegarei à margem. Visualizo cada espaço, mas há o inesperado, sempre a fluidez. Das águas agora.

 

Referências consultadas:

 

COHEN, Renato. Work In Progress na Cena Contemporânea: criação, encenação recepção. São Paulo: Perspectiva, 1998.

 

SANTOS, Inaicyra Falcão dos. Corpo e Ancestralidade: uma Proposta Pluricultural de dança-arte-educação. 2ª. ed. São Paulo: Terceira Margem, 2006.

 

VALLADO, A. Iemanjá: a grande mãe africana do Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2002

 

 

 


[2] Virou encantada em 04 de junho de 1997.

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